Parte 1 — Introdução e Fundamentos da Fé
Analisando alguns debates entre trinitários, unicistas e unitaristas, percebi que um dos fatores que os divide é o fato de não verem Jesus como um Templo. Quando O enxergamos como o Templo Santo de Deus, o único local de Sua habitação, quebra-se a parede de separação entre o que é Deus e o que é o Filho de Deus.
Outro ponto importante é a forma como olhamos para Deus. Se não atentarmos ao fato de que Jesus disse: “Deus é Espírito” (Jo 4:24), poderemos enxergar Deus como um ancião, e o Espírito Santo como um pássaro, ou até mesmo como uma simples força ativa de Deus — uma terceira pessoa que O auxilia.
Mas o conselho é este: olhe para Deus e veja-O como o Espírito. Jesus afirmou diversas vezes: “As obras que eu faço não as faço de mim mesmo, mas o Pai, que está em mim, é quem faz as obras” (Jo 14:10).
Jesus sempre se referiu ao Espírito Santo como o Pai. Ele também declarou que se podia blasfemar contra o Filho, mas quem blasfemasse contra o Espírito Santo não teria perdão (Mt 12:32).
Perceba: Ele não menciona o Pai separadamente, mas concede ao Espírito Santo o lugar Daquele que não pode ser ofendido, pois Ele é Santo — Ele é o Pai.
Estes são os dois principais fatores que geram rivalidade entre as correntes teológicas. Acredito que, se todos compreenderem quem é Jesus dentro das profecias do Antigo Testamento, poderão entender o Seu papel dentro do contexto dos Evangelhos.
Jesus é o Verbo que se fez Templo
Entender Jesus como o Verbo é fundamental, e Sua encarnação é o passo essencial para compreender a vontade de Deus para nós.
Assim, podemos afirmar:
“Jesus é o Verbo que se tabernaculou — o Templo vivo de Deus.”
Deus Pai é o Espírito Santo — O Cristo
Reconhecer que o Pai é o Espírito Santo elimina as dificuldades de interpretação e os equívocos doutrinários. Quando tomamos consciência disso, removemos toda distorção e conseguimos nos relacionar melhor com Deus.
“Se tomarmos consciência de que o Pai é o Espírito Santo, eliminamos toda distorção de interpretação e poderemos nos relacionar melhor com Deus.”
Isto deve ser ponto pacífico entre todos os crentes. Como disse Jesus:
“A vida eterna é esta: que conheçam a Ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17:3).
E o apóstolo João afirma:
“A nossa comunhão é com o Pai e com Seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo 1:3b).
Estando pacificadas as mentes a respeito de Deus, o Pai, e de Jesus como a Casa de Deus, reduzimos as falácias em 100%. Contudo, sei que não é fácil muitos aceitarem isto como verdade, pois as pessoas se apegam a jargões preconcebidos e não permitem que a Palavra entre em suas mentes. Usam bloqueios mentais que justificam suas próprias teses, sem dar oportunidade ao verdadeiro conhecimento das Escrituras.
Mesmo sabendo disso, não deixarei de escrever — quem sabe alguém tenha ouvidos para ouvir?
(fim da Parte 1)
Posso agora seguir com a Parte 2 — O Verbo, a Glória e o Templo de Deus, que começa em:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus…”
Parte 2 — O Verbo, a Glória e o Templo de Deus
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por meio d’Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.” (Jo 1:1–3)
Este texto é a descrição de João a respeito de Cristo.
Mas veja o que o próprio Cristo declara:
“E agora, glorifica-me, ó Pai, junto de Ti mesmo, com aquela glória que Eu tinha contigo antes que o mundo existisse.” (Jo 17:5)
Percebemos, portanto, que existia uma glória única entre o Pai e o Filho, uma glória que aparentemente deixou de existir após a criação de todas as coisas, conforme afirmado por Cristo.
Que glória é essa? E por que deixou de existir?
Essas duas perguntas são fundamentais para compreendermos o mistério de Deus em Cristo.
João afirma que o Verbo estava com Deus e era Deus.
Depois, declara que apenas esse Verbo poderia criar o que foi criado.
Mas por quê?
Paulo afirma que Deus, o Pai, habita em luz inacessível (1Tm 6:16).
Salomão também declara que “os céus dos céus não podem conter Deus” (1Rs 8:27).
Podemos, então, refletir filosoficamente: Deus é anterior ao tempo e ao espaço, visto que todas essas coisas tiveram um começo. Logo, a realidade criada não pode conter Deus nela, pois Ele é infinito e insondável.
Mas, se o criado não pode conter Deus, como Ele criou todas as coisas?
Jesus nos dá a pista quando diz: “Glorifica-me junto de Ti com a glória que tínhamos antes de o mundo existir” (Jo 17:5).
Para que o mundo fosse criado, o Verbo — que é Deus — deixou Sua glória inicial de estar totalmente em Deus, para realizar a vontade de Deus.
Podemos ilustrar assim:
“Quando alguém planeja uma palestra, as palavras estão apenas em sua mente; mas, no momento em que a palestra é proferida, as palavras saem, formam ideias e criam realidades em outras pessoas.”
Assim também foi com o Verbo de Deus.
A Palavra de Deus, que é o Espírito de Deus, foi pronunciada desde a eternidade, e a partir daí começou a ecoar no mundo (Gn 1:1–3).
Primeiro, criando a realidade espiritual e os poderes celestiais (anjos etc.);
Depois, formando as mentes humanas;
E, finalmente, encarnando-se.
A partir daí, a Palavra começou um movimento inverso — voltando para Deus (Is 55:11).
Ela ainda não retornou por completo (Hb 2:8), pois segue um processo: veio criando o caminho, depois o pavimentou, e agora está concluindo-o (1Co 15:28).
Espero que esta analogia tenha ficado clara.
O Processo da Glorificação
Vemos nas Escrituras que a Palavra segue um caminho inverso ao da criação.
Embora muitos não creiam, é fato que há um processo acontecendo: o caminho de retorno à Glória.
Jesus veio materializar o que já havia sido anunciado pelos profetas.
Morreu — o primeiro passo —, aniquilando o poder do diabo (Hb 2:14).
No terceiro dia, ressuscitou — o segundo passo —, para justificar todos os que cressem n’Ele (Rm 4:24–25).
E foi exaltado — o terceiro passo —, como está escrito:
“Pelo que também Deus o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo nome.” (Fp 2:9; cf. Sl 110:1)
Alguns pensam que a obra terminou ali, mas o autor de Hebreus demonstra que ainda há um percurso:
“Tu o fizeste um pouco menor do que os anjos; de glória e de honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras de tuas mãos.
Todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés. Ora, visto que lhe sujeitou todas as coisas, nada deixou que não lhe esteja sujeito.
Mas agora ainda não vemos que todas as coisas lhe estejam sujeitas.” (Hb 2:7–8)
Paulo confirma o mesmo em 1 Coríntios 15:23–28:
Cristo venceu a morte, mas o corpo (a Igreja) ainda está em processo de vitória.
Ele deixou de ser o Unigênito para tornar-se o Primogênito entre muitos irmãos (Jo 1:18; Rm 8:29).
A Cabeça já venceu a morte; porém, o corpo ainda aguarda a transformação.
No tempo certo, Ele transformará nossos corpos abatidos em corpos gloriosos, à semelhança do Seu (1Co 15:54; 1Jo 3:2).
Então, quando entregar o Reino a Deus, o Pai, Deus será tudo em todos (1Co 15:28).
Jesus, o Templo de Deus
“Derribai este templo, e em três dias o levantarei.”
Os judeus responderam: “Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e tu o levantarás em três dias?”
Mas Ele falava do templo do Seu corpo.
(Jo 2:19–22)
Os judeus destruíram o templo de Jesus — Sua natureza humana, herdada de Maria, corruptível como a de Adão.
Mas o Templo de Deus é incorruptível e imortal.
Jesus morreu de verdade, não simbolicamente; contudo, ao ressuscitar, não ressuscitou a natureza carnal, pois carne e sangue não herdarão o Reino de Deus (1Co 15:50).
Ressuscitou como uma nova criatura, a primeira de muitas.
Somente essa nova criação pode suportar a plenitude de Deus corporalmente, pois foi feita em Deus, pela Sua Palavra — é o meio pelo qual Deus habitará no meio dos homens para sempre.
A Promessa do Templo de Deus
Está escrito que Deus decidiu habitar em uma casa (Cl 1:19).
Davi desejou construí-la, mas Deus, por meio do profeta Natã, disse que não seria ele, e sim um de sua descendência (1Cr 17:1–15).
Salomão pensou ser esse descendente, e construiu um templo, ainda que soubesse que “os céus dos céus não poderiam conter Deus” (2Cr 6:18–20).
Mesmo assim, ele seguiu o mandamento de Deuteronômio 12:11, que dizia:
“O lugar que o Senhor escolher para fazer habitar o Seu nome, ali vireis para adorá-Lo.”
Em Ezequiel 43:4, Deus promete habitar num templo e firmar ali o Seu trono para sempre.
Muitos teólogos acreditam que se refere a um terceiro templo literal, mas Isaías 66:1–2 afirma que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas.
Logo, a profecia se cumpre em Cristo, como confirmado em Efésios 1:9–10:
“Fazendo-nos conhecer o mistério da Sua vontade, segundo o Seu beneplácito, que propusera em Si mesmo, de tornar a congregar em Cristo todas as coisas, tanto as que estão nos céus como as que estão na terra.”
Em Jesus, todas as coisas são congregadas, pois foi nEle que Deus colocou o Seu Nome (Dt 12:5; Fp 2:9).
Jesus é, portanto, o verdadeiro Templo e a morada eterna do Pai.
Parte 2 — Conclusão: A Igreja como Casa de Deus e o Propósito Eterno
Jesus é o Templo de Deus, e a Igreja é a extensão viva desse Templo, a Casa de Deus na Terra.
O plano divino não termina em Cristo apenas como indivíduo glorificado, mas continua na união da Igreja com Ele, formando um só corpo, um só templo, uma só habitação.
Paulo expressa isso claramente:
“No qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito.” (Ef 2:22)
A edificação da Igreja é, portanto, a continuidade da obra do próprio Cristo, pois Deus deseja habitar plenamente em Seu povo.
Assim como a glória de Deus encheu o tabernáculo de Moisés (Êx 40:34) e o templo de Salomão (2Cr 7:1–2),
agora a plenitude da glória habita no corpo de Cristo — Sua Igreja (Cl 1:27).
A Igreja e o Mistério Revelado
O mistério antes oculto, revelado a Paulo, é o propósito de Deus em fazer de todos os povos um só corpo em Cristo.
O apóstolo explica:
“O mistério que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou, para que agora, pela Igreja, seja manifesta a multiforme sabedoria de Deus.” (Ef 3:9–10)
A Igreja é, portanto, a expressão visível da habitação de Deus.
Nela se cumpre o que Jesus declarou: “Eu neles, e Tu em Mim, para que sejam perfeitos em unidade.” (Jo 17:23)
Essa união mística é o clímax do plano de redenção — Deus voltando a habitar plenamente em Sua criação.
A humanidade, redimida e transformada, torna-se o novo templo vivo, não feito por mãos humanas, mas edificado pela própria Palavra.
Pedro também confirma:
“Vós também, como pedras vivas, sois edificados casa espiritual e sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por Jesus Cristo.” (1Pe 2:5)
Cada membro do corpo é uma “pedra viva”, encaixada e unida pelo Espírito, formando a morada eterna de Deus.
O Cumprimento Profético e a Nova Criação
Tudo o que foi prefigurado no Antigo Testamento — o tabernáculo, o templo, o sacerdócio, os sacrifícios — converge em Cristo e se cumpre na Igreja.
O templo terreno, símbolo passageiro, dá lugar ao templo celestial, eterno e incorruptível.
João, em sua visão, descreve o estado final:
“E vi a santa cidade, a nova Jerusalém, que de Deus descia do céu, preparada como uma esposa adornada para o seu marido.
E ouvi uma grande voz do céu, que dizia: Eis aqui o tabernáculo de Deus com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o Seu povo, e o mesmo Deus estará com eles e será o seu Deus.” (Ap 21:2–3)
Nessa visão gloriosa, não há mais templo físico, pois o Senhor Deus Todo-Poderoso e o Cordeiro são o templo (Ap 21:22).
A criação inteira é restaurada, e o propósito eterno de Deus — habitar em Seu povo — se cumpre plenamente.
A glória perdida no Éden é restaurada; a comunhão interrompida é reatada; a humanidade é unida novamente a Deus em amor perfeito e eterno.
O Propósito Final de Deus
Desde o princípio, o desejo de Deus não foi apenas criar, mas habitar.
Ele não busca templos de pedra, mas corações regenerados;
não deseja sacrifícios de animais, mas vidas rendidas;
não quer uma religião, mas uma relação viva e eterna com Seus filhos.
Por isso está escrito:
“Serei o seu Deus, e eles serão os meus filhos.” (Ap 21:7)
Aqui se encerra o plano da redenção —
o Verbo que desceu para criar, desceu novamente para salvar,
e agora, glorificado, retorna para habitar em nós, fazendo de cada crente um templo vivo,
até que Deus seja tudo em todos (1Co 15:28).
Conclusão Final
A revelação da habitação divina percorre toda a Escritura —
desde o Éden até a Nova Jerusalém.
O homem foi criado para ser a morada de Deus;
Cristo veio para restaurar esse propósito;
e a Igreja é o resultado desse plano eterno.
Assim, podemos resumir toda a economia divina em uma só expressão:
“Deus em Cristo, Cristo em nós.”
Nele, o céu e a terra se unem;
nele, o invisível se torna visível;
nele, o eterno habita no temporal;
nele, a glória de Deus se manifesta corporalmente e habita para sempre entre os homens.
“Eis o tabernáculo de Deus com os homens… e Deus será tudo em todos.”
(Ap 21:3; 1Co 15:28)
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